Entendi que precisava de um lugar além da minha caixola para guardar

bem dobradinhos alguns contos,

alguns causos outros fatos e memórias...

Numa caixa não cabia, é preciso muito papel.

Então aqui esta bom...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Erva Doce

Suspirou. Olhava a fotografia amarelada pelo tempo. Havia se passado muito tempo, nem se lembra mais da última vez que a vira. Lembrava, porém de seu cheiro. Era um cheiro mato. “Gosto de cheirar a mato”, ela dizia sorrindo sempre. Sempre estava sorrindo e tinha um ruído tão bom aquele sorriso. Um barulhinho bom que dava vontade de sorrir também. E ele sempre sorria com o sorriso dela.
Suspirou e sorriu olhando a fotografia de seu sorriso.
Provavelmente agora ele seria para ela nada mais que uma mera lembrança. Talvez uma doce lembrança. Oras, certo ele estava de que fez bem a ela. Sempre lá. Sempre... Qual era mesmo a palavra? “Disponível”, ah, sim. Ela sempre dizia “você sempre está disponível para mim”.
Em seus pensamentos também, há muito tempo ela não habitava mais. Teve a repentina surpresa de encontrar em seus manuscritos a foto que roubara para recordação, num tempo em que nem imaginava que ela poderia se tornar apenas isso, uma recordação.
Lembrou-se de seu primeiro abraço.
Foi naquele primeiro abraço, do primeiro dia em que se viram pessoalmente, da primeira vez em que percebeu que ela fingia não ser tão vulnerável... E como era. Era tão frágil, e tinha sua fragilidade refletida em seus olhos marejados.
Naquele primeiro dia em que a abraçou e sentiu-se envolto numa névoa malevolente de sentimentos. Todos os cheiros e sentimentos e confusões. Tudo vinha dela. E ele se sentiu tão vil naquele momento. Pois seu abraço, por mais que ela tentasse esconder, era um afago de consolo. Ela tinha o coração partido. E ele, já se sentia embriagado de sua paixão. Como podia ter tal sentimento despertado naquela hora tão injusta? Deveria consolá-la, sem que ela percebesse, é claro. Mas aquele abraço para ele era mais erótico do que fraterno.
Estava apaixonado. E ela estava triste. E era cena aquela dos dois abraçados mentindo um para o outro. Tomando cuidado para não serem descobertos em seus sentimentos. Ela lutando para sorrir, ele querendo parecer indiferente aquele cheiro.
Sempre que pensava nela a atmosfera se enchia daquele cheiro doce.
Mas há tanto tempo não pensava nela.
Tanto tempo passavam juntos que a sensação que dava era de que nunca se separariam. Como é esse destino...
A fotografia fora posta novamente dentro do livro onde havia sido guardada. Mas já era tarde, todos os seus sentimentos se confundiam num flashback que lhe revirava o estômago.
- Você tem medo de altura é?
- Tenho.
- Por que?
- Não sei.
- Bobagem.
- E você, não tem medo de nada?
- ...
- Não?
- Claro que tenho, todo mundo tem medo de alguma coisa...
- Então do que é que você tem medo?
- Não é de altura. Eu adoro voaaaar....
Ela se inclinou para fora do parapeito da janela do quarto andar. Seu peito se apertou como se seu coração estivesse sumindo aos poucos. Sentiu tanto medo. Mesmo assim livrou-se de sua paralisia e a segurou. A segurou pelos braços e a abraçou.
- Não faça isso.
- Bobo!
Não, não convinha pensar naqueles momentos agora. Não convinha relembrar seu amor. Platônico. Calado. Não convinha sofrer de seus arrependimentos. Esquecê-la era melhor. Estive muito bem enquanto não lembrava. Para que diabos teve de encontrar aquela foto?
- Você é meu único amigo sabia?
- Mas você tem tantos amigos, como pode dizer isso?
- São só pessoas que eu conheço. Eu conheço muita gente mesmo, mas não são meus amigos.
- Como você sabe que não?
- Eles não me falam olhando nos olhos. E nunca me fazem carinho no cotovelo.
- E como você sabe que eu sou seu amigo?
- eu sei.
- Como?
- Eu simplesmente sei...
Ela nunca respondia as suas perguntas. Tantos mistérios. Mistério que os separou. Assim, de repente. Não bruscamente, só de repente. Num momento estavam sempre juntos. No outro, se viam apenas por acaso. Os acasos que seus pensamentos causavam.
- Somos telepáticos.
- Por que?
-Por que sempre que eu penso em você, você aparece.
- Isso não vale.
- Porque não?
- Por que você está sempre pensando em mim.
- Boba.
- Acho que você me ama.
- Claro que amo.
- Não é esse amor que eu estou falando. Acho que você me ama mesmo.
- ...
Ela nunca respondia as suas perguntas. Abriu novamente o livro. A fotografia. Sorria, era aquele sorriso eterno. O que terá acontecido com ela?
Pela janela viu seus filhos brincando no jardim. Amália, sua esposa, sorria e corria entre os arbustos. O cachorro Bóris, mal criado como sempre fazia xixi nas mudas novas de erva-dose e capim cidreira. Tinha que dar um jeito de adesdrar aquele cachorro ou perderia seu pomar, pensou. De certa forma, estava feliz e aliviado.
Achou melhor livrar-se daquela lembrança.
Amou-a até esquecê-la novamente.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Banho de Pipoca doce (terceira estória)

Ah, a Bahia!! 
Vocês já vieram à Bahia? Já nadaram no Porto da Barra? Já sentiram a energia negra do Pelourinho? Já visitaram a Casa de Jorge Amado? Já foram aos bares boêmios do Rio Vermelho? Já tomaram o sorvete da Ribeira? (...)
Márcia chegou no meio de uma guerra de mamonas. Vinha de São Paulo, branca como só a falta de sol daquela garoa paulistana poderia fazê-la. Era prima de segundo grau, tenho tantas...
Fomos receptivos, a convidamos para entrar na guerra. Ficou do meu lado, admito, era o lado mais fraco, mas lutávamos como guerreiros. Os outros eram mais velhos, logo, mais fortes... Dividimos 5 contra 5. Era segunda-feira, a ultima do mês de janeiro. Terceiro dia de festa no largo. Mas nós não ligávamos para todo aquele movimento.
Perdemos. Márcia, pobre forasteira, saiu com o olho roxo de uma mamona que acertaram em cheio em sua cara rosada. Pobre Márcia.
Para distraí-la levamos a novata pra o largo. Foi um encantamento. Não víamos nada de mais. Mas a Márcia, ah, a Márcia via um mundo mágico. Toneladas de pipoca por todo o chão. E as pessoas se banhavam nela, e fechavam os olhos enquanto as baianas faziam jorrar pipoca de seus balaios.
- Só falta o guaraná pra festa ser completa.
Rimos, ela não sabia o que estava dizendo. Na verdade, nós também já tivemos nossos momentos de devanear com tanta pipoca... Mas já havia passado. Mesmo assim uma idéia surgiu. Caminhamos sorrateiros até um balaio cheio. Márcia olhou ao redor, Luis e André ficavam de tocaia, eu e Ângela pegamos o balaio e partimos picadas por trás da igreja.
Luis - A gente vai comer?
Márcia – E não?
André – Mas, é pipoca do santo...
Márcia – Agora é nossa!
Nos entreolhamos, é claro que ela não entendia. Nós também não entendíamos. O balaio estava lá, ao nosso alcance. Era um sonho de muito tempo que se realizava. Nunca vimos tanta pipoca.
Márcia – Vou pedir o Guaraná ao meu pai...
Era isso, arriscamos...
A dor de barriga que veio depois até que poderia ter sido algum castigo do orixá, mas desconfio que tenha sido mesmo causado pelo chocolate que acrescentamos à pipoca... Foi um banho de pipoca doce...


(E acabou-se o que era doce)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Santo de pau oco (segunda estória)

E quem presidiu a comunidade naquele ano foi Antônio da venda de Maria-mole e Broa. Ele queria uma festa grande, a maior que o bairro já vira. Aquele seria o ano memorável de sua gestão. Cobrou tributo aos moradores e impostos mais altos aos que trabalhavam na festa. Mas a grande surpresa só o Padre Honório e alguns mais chegados à sacristia que sabiam.
- Mas a imagem grande nunca saiu da igreja em mais de trezentos anos. O senhor tem certeza de que é seguro?
-Mas é claro que é padre Honório. Tem policia pra tudo que é lado, que eu mesmo mandei chamar reforço. Além do mais quem roubaria um trambolho daquele?
- Não blasfeme seu Antônio!
- Desculpe seu padre, eu não queria blasfemar não. Deus me perdoe. Era só pra dizer que a imagem é muito grande e pesada, não haveria de ter no mundo alguém que pensasse em carregá-la, e se o fizesse, não faria desapercebido, num sabe?
Combinaram-se assim. Seria missa das sete da manhã até o meio dia. Depois da uma da tarde até as 4h que era a hora da procissão.
Chegado o horário marcado, os anjinhos já estavam a postos em cima do carro alegórico construído especialmente para o santo Lázaro que daria seu primeiro passeio até o Cemitério do Campo Santo e de lá voltaria pra casa de onde só sairia em mais trezentos anos, talvez.
Todos na entrada da igreja ouviam o grande sermão de padre Honório, que falava de um palanque, também idéia do Presidente, seu Antônio.
Dentro da igreja fechada, o Santo de madeira de lei, com quase quatrocentos anos de idade, era retirado de sua cúpula no altar.
Na hora dos cânticos de candomblé que se misturavam aos louvores dos protestantes, padre Honório e o presidente se entreolharam em sinal para que abrissem a porta da igreja e revelassem a grande surpresa.
De fato maior surpresa que aquela não poderia haver. O altar completamente vazio de São Lázaro. E também a igreja parecia não guardar qualquer vestígio de seu paradeiro.
Foi o desespero. A população ainda não entendia a mudez estatelada do padre, nem o sobe e desce desvairado do presidente. Os anjinhos olhavam-se rindo, esperando para se mostrar ao grande publico. Publico esse cheio de jornalista e artistas que o presidente fez questão de garantir a presença na primeira fila da procissão, logo depois do cortejo dos eclesiásticos e dos músicos do Olodum.
De repente alguém berrou na multidão:
- Roubaram o São Lázaro!
E foi um mar de “Ohs” e exclamações assustadas. Quem poderia roubar a imagem do Santo? Especulações para todo o lado. Havia quem dissesse que o próprio presidente. Outros falavam em terrorismo, e havia quem achasse mesmo que foram os crentes!
O mistério logo se resolveu. A Beata Lurdinha, fazia um lanchinho na sacristia quando viu o santo ser levado. Decidiu seguir os mal-feitores para saber onde levariam o santo e lá estava ele, na casa de dona Maria Madalena, a cidadã mais velha do bairro. Maior devota de são Lázaro de que se tinha notícia.
Toda a multidão seguiu em procissão até a casa da velha senhora.
Chegando lá deram com Dona Maria ajoelhada aos pés do santo. Remexendo lá com uma serra, uma chave de fenda e uma vela pra iluminar. Os homens que levaram a imagem até lá, se explicaram dizendo que Dona Maria afirmou que o padre mesmo havia dado a ordem de levar o Santo pra lá e eles nunca duvidariam da palavra de Dona Maria, sua avó, avó postiça de quase todo mundo no bairro, aliás.
Dona Maria remexia o santo, até ele fazer um barulho, e o santo se abriu. O padre ainda sem muita reação, exigiu do Presidente que fizesse alguma coisa. A velha devia era está ficando gagá.
Quando se precipitou para tentar impedir a velha, o presidente e todos os romeiros pararam surpresos. A imagem de São Lázaro se abriu em banda como uma laranja e de dentro dela dona Maria tirou um pacote, um saco pra ser mais exato.
Ela sorria emocionada. De dentro do saco Dona Maria tirou um rosário de ouro e pérolas.
- Tava escondido aí há quase cem anos. Foi minha avó quem butou lá. Ela me contava que o santo era oco e que dentro dele ela tinha posto esse rosário lá.
O rosário foi dado a sua avó por Orestes de Amorim Filho, antes de ele ir morrer na guerra. Orestes foi o único amor da vida de Maria Celestina Alves, avó de dona Maria. Ela guardou lá o rosário para escondê-lo de seu pai que a obrigou a se desfazer da jóia, pois ela se casaria com o rico herdeiro da Família Albuquerque. Triste fim de Dona Maria Celestina, morreu falando de seu amor.
O santo foi aberto, e quem diria que uma imagem de madeira de lei que não saia de seu altar há mais de trezentos anos, escondia os segredos da família de Dona Maria Madalena, a moradora mais antiga do bairro, a devota mais fervorosa do santo Lázaro...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Baiana branca (três estórias)

Baiana branca


O cortejo chegara pontualmente à 1 da tarde. Pontualmente atrasado, como todos os anos. Vinham num mar branco de Gandhy, de baianas, de anjos e crianças. 
Aquela era a festa dos pretos, o santo católico dava lugar a Obaluaê. 
Dentro da igrejinha amarela, o padre rezava a missa à Santo Lázaro.
 Fora, nas escadarias da igrejinha que fica no alto do morro, a água de cheiro jorrava em alfazemas e alecrins, todas as saias rodadas para o samba, todos os decotes bem cortados para atiçar os orixás, e vassouras em punho, puseram-se a lavar degrau por degrau, e esfregar, e sambar... 
Entre risos e rodopios com as mãos na cintura, as baianas lavavam. E eram cheiros vários, e cânticos em línguas africanas, e banhos de água de cheiro e pipoca pra lavar a alma. Abria-se o mote para a dança, e era tanto samba de roda, e elas rodavam e lavavam com suas vassouras o chão de Lázaro.
O sol tilintava quente, mais um motivo para o banho alegre das crianças no jato forte da mangueira do caminhão pipa.
E era tudo uma onda de convexos. Na missa os sermões católicos, no Cruzeiro as baianas e seus feitiços. E havia também os crentes que se escondiam em suas casas horrorizados.
E como se deuses e demônios estivessem em harmonia, brincando juntos na alegria da Bahia, ao redor de toda aquela romaria a festa profana se iniciava. Uma gota pro santo antes do primeiro gole. E era o pagode e os risos altos.
De todo lugar os sons se misturavam numa cacofonia barroca. E era tanta dança, suor e cachaça... E era tanta santidade, um rosário que se abria.
E logo era a capoeira de meninos, e o Gandhy numa mancha branca, imaculada.
- Oxente! E de onde saiu essa baianinha assim tão alvinha, que mais parece filhote de urubu?
- Pinta ela de piche. Baiana branca assim pra lavar as escadas de Obaluaê e cair na roda de samba, não pode ter não.
Pegaram a criança, a baianinha branca como aberração, e não acharam piche não. Mas melaram todo o rosto, seus braços e pernas, tudo de branco que se amostrava, pintaram tudo de borra de carvão.
E todo ano era assim: no palanque o padre rezava, na escada as baianas sambavam, e em casa os crentes se escondiam: “Perdoa pai, eles não sabem o que fazem”...




(são três estórias por que são três dias de festas para o santo Lázaro...)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Analu

O vento chegava manso espalhando o som de galhos de bambu se tocando e os cheiros vários de mangas, cajus e araçás.
Também transtornava os cabelos de Ana Luisa tão plácida brincando de assustar as melissas, aquelas plantinhas de folhas pequenas que se fecham ao leve toque. Que se chamam melissas, a gente só descobriu depois de grandes, e depois de grandes, também nos separamos. Chamávamos as plantinhas de “sai da janela que lá vem o boi”, e Ana Luisa ainda era apenas Analu. A gente nunca devia crescer. Crescer pra mim só serviu para descobrir o significado da palavra mediocridade. Ah sim, essa é uma palavra que repito muitas vezes em minha autobiografia: M-E-D-I-O-C-R-I-D-A-D-E...
Antes não ter crescido. Antes continuar sem saber das melissas, antes manter aquela ignorância inocente de acreditar que se chega à China cavando um buraco até o outro lado do mundo. Aquela certeza incoerente das pequenas verdades da vida. Antes não ter crescido nunca para não precisar ver Aninha se tornar a Senhora Ana Luisa de Andrade.
Mas aquela era uma tarde fresca de verão, como muitas tardes que passei com Analu no quintal de sua casa brincado de aventura, subindo em árvores e colhendo frutas frescas.
Éramos amigos desde a mais terna infância, mas é claro, só percebi minha paixão desesperada por ela anos mais tarde, na adolescência, quando a vi nos braços de Lucas, também um grande amigo... Mas Lucas (ou senhor Andrade, como é conhecido hoje em dia) nunca viu em Analu o que eu vi. Nunca conheceu sua verdadeira essência. Analu tinha um brilho, um sorriso, algo secreto que ela só mostrava para mim. E naquela tarde ela sorria assim, um sorriso misterioso de olhar peralta. Uma Monalisa tupiniquim.
- vem aqui Guilherme, quero lhe mostrar uma coisa...
Ela agarrou a minha mão e fomos nos encostar no tronco da ultima mangueira, a mais escondida do quintal, que na nossa imaginação era um bosque encantado de unicórnios e pinhos.
Analu trazia consigo uma leve sensualidade de menina brejeira em seus cachos longos, seus olhos grandes e boca pequena de lábios cor de romã. A pele tão serena debaixo do vestido de chita sem mangas. Gostava de babados, rendas e casas de abelhas e laços e no pescoço a medalha da virgem que fora de sua mãe e de sua avó e hoje deve pender no pescoço de sua filha mais nova.
E eu, menino pio, magro como um graveto nas calças curtas e camisa de algodão só acatava as ordens dela, tão imponente em tudo o que fazia. Havia tanta volúpia naquela inocência e vice e versa.
- Ouça Gui, ela começou, você é meu melhor amigo, meu fiel escudeiro, aquele a quem eu conto todos os meus segredos mais secretos...
E eu ouvia sua voz de vespa com o peito inflado orgulhoso. Ouvia com a postura de um servo da coroa ao receber um elogio: Humilde, porém cheio de nobreza. Mas ao mesmo tempo não ouvia nada. Toda aquela ladainha de melhores amigos era tão repetitiva. Ela sempre dizia as mesmas coisas, fazia os mesmo rodeios antes de dizer o que realmente queria. De repente:
- Quero que você me beije...
Fui arremessado violentamente para fora dos meus devaneios de Don Quixote.
- O que você disse?
- Ah, eu sabia! E agora, se não for você que eu confio, quem mais será?
Sim, eu havia escutado. Ela ordenou que eu a beijasse. Não, ainda não havia a paixão, nem a adolescência. Éramos duas crianças de imaginação fluente. Ela queria um beijo, aquilo parecia-me um tanto quanto nojento, asqueroso, mas ao mesmo tempo excitou-me a idéia de beijar os lábios de uma garota. Apesar de que para mim, Analu não era bem uma garota. Era apenas, ou melhor, nada menos que a minha melhor amiga. Talvez eu a visse como um ser assexuado, uma ninfa ou heroína...
- Beijar você Analu, mas pra que?
- Para saber como é, oras.
- Nojento, creio.
- Não deve ser não. Minha mãe sempre beija meu pai. E disse-me que quando tivermos idade também vamos beijar, talvez até você e eu viremos namorados. Mas o fato é quero saber como é, para já ter experiência quando for beijar.
- Mas se seremos namorados, pra que você quer experimentar agora, por que não espera até a gente crescer?
- Por que quero saber agora. E se eu quiser namorar outro?
Tinha razão. Acabei concordando afinal.
- Muito bem, feche os olhos, a gente conta até três e beija. Tá?
Segui as ordens dela, como o de costume. Fechamos os olhos e contei até três mentalmente. Mas na hora do beijo, receei que ela desistisse, então não saí do lugar. Analu encostou seus lábios nos meus e me abraçou. Eu abri os olhos de susto. Vi seus olhos fechados, a boca num leve bico de passarinho, a respiração parada.
Senti uma onda de calor me invadir, meus movimentos não obedeciam a minha razão. Abracei Analu e a puxei para mais perto de mim. Pus minha língua em sua boca, mas nada disso premeditadamente calculado. Talvez só instinto e por instinto também Analu recebeu minha língua no calor de sua boca e nos beijamos entre dentes de mão desajeitadas.
5 ou 7 segundos, foi quanto durou nosso primeiro beijo. Talvez menos, pra mim muito mais.
Analu afastou-me ofegante e um tanto encabulada. Eu também, ainda sem jeito com as mãos, olhava as pontas dos dedos dos pés ruborizados.Até que ela quebrou o silêncio.
- vamos brincar de selva?
Sorrimos e voltamos a correr por aquele quintal, para nós tão imenso.
Aquela foi a primeira e ultima vez que beijei Analu. Quando crescemos ela apaixonou-se por Lucas. Nunca contei para ela do que sentia. Foi uma escolha, talvez não a mais certa, mas a minha escolha. Amei Analu até o dia em que percebi que não amava mais. E foi assim sempre, amar uma mulher, até o derradeiro dia ou o primeiro dia em que não se ama mais...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Trocando em miúdos...

Encontraram-se depois de muito tempo. Não se viam há mais de quarenta anos. 

O homem velho a passos trôpegos conduzia a velha dama pelo salão. Bailavam como se bailando estivessem naquele tempo em que sorriam com ternura e sonhavam com a eternidade. Estavam apaixonados. Mas agora tudo eram meras lembranças... 


O tempo havia sido gentil com a bela senhora. Os cabelos louros um pouco grisalhos mantiveram a macies dos fios. As mão de pianista e os traços finos do rosto delicadamente marcados pela idade.

Ele estava mais velho do que deveria, ela pensou. Pode ser por trabalhar demais, sempre trabalhou demais. Ela lembrava dele bem jovem debruçado sobre os cadernos de contabilidade dos negócios do pai, “Luis, vamos correr até o lago.”, “depois Odete, agora tenho que terminar isso...”, ele sempre trabalhou demais.
Por que será que nunca se casou?
Odete havia se casado, teve filhos, netos, estava prestes a ganhar um bisneto. Teve uma família feliz, cumpriu sua obrigação de mulher. Tornou-se uma dama respeitada por toda a sociedade. Quando ficou viúva aos 45 anos, manteve-se de luto por mais de um ano apesar de já extinta essa tradição. Odete era tradicional. Foi criada tradicionalmente. Não poderia ser diferente. Não poderia.

A musica parou de tocar. Eram embalados pela melodia de suas lembranças. O centro do salão ficou vazio. Pararam tímidos ao perceber que eram os únicos ainda a dançar. 


Odete riu baixinho e enterrou a cabeça no peito de Luis como costumava fazer no passado. Sentiu o cheiro de suas roupas, parecia o mesmo de sua adolescência, ouviu os batimentos de seu coração, acelerados disritmados com a valsa. Olhou para ele timidamente e sorriu – Acho que a nossa música é eterna.

Ele não disse nada. Sabia do que ela estava falando. Ela sabia qual a música que o embalava pois para ela a música era a mesma. Ainda lia seus pensamentos, ele imaginou. 


- Vamos sentar?

- Sim. Ele falou mas não sorriu. Quando saiu de casa naquela noite estava decidido a sorrir, sorrir muito. Fazer piadas sobre seu passado juntos. Sim, sempre soube que algum dia riria daquilo tudo, de toda aquela mágoa boba. Depois de tanto tempo, todo aquele sofrimento seria como uma palavra difícil repetida muitas vezes... Perderia completamente o sentido. 


Passara quarenta anos esperando para rir de seu passado. Mas naquela noite, com ela. Estava lá ao seu alcance. Linda como em sua adolescência e sorrindo com o mesmo sorriso que ele podia se lembrar. Não conseguia achar sem sentido seus sentimentos. Não conseguia rir de seu passado que se tornava cada vez mais recente e doloroso. Ela o deixou. Ela o feriu e a cicatriz quase aberta estancava cada vez menos a sua angustia. 
Ela o magoou e ele a odiava. Queria matá-la e vingar-se. Queria que ela pedisse perdão e falasse de como sofrera todos esses anos sentindo sua falta e arrependida por ter feito uma má escolha. Queria que ela dissesse o quanto o ama. Ele a perdoaria, pois ela a amava. 
Sentaram-se numa boa mesa. De frente um para o outro.

- Você está tão calado, não mudou nada. Parece que foi ontem que te vi naquela mesa estudando como um louco aquela engenharia. Soube que você...
- Por que você não me esperou? Ele a interrompeu de repente.
Odete olhou para o chão depois fixou o olhar na banda que voltou a tocar. 


- Não precisamos falar sobre isso.- Olhava para frente como se visse através de Luis. 
Luis fechou os olhos e abaixou a cabeça – você não imagina que poderíamos ter sido felizes?- Ele encarou Odete.

Ela ainda olhava a banda desconcentrada – Por que você ainda se tortura e me tortura com isso Luis? Não era para ser, não podíamos ter ficado juntos, não era para acontecer...
- Eu não entendo.
- Quem não entende sou eu – Odete o encarou revoltosa – Como você ainda pode querer falar disso depois de tanto tempo. Veja Luis, essa é a festa de bodas de Maria, está completando cinqüenta anos de casamento com Gusmão. Se não fosse essa festa, nunca teríamos nos encontrado e...
- Só por que você me abandonou.- Luis levantou a voz.
- Escute, eu fiz o que era certo. Que futuro teríamos? Eu não tive escolha, Nem sabia se você voltaria mesmo. Tive que fazer o que me foi ordenado pelo meu pai. Tenho que respeitar a honra da minha família.
- Eu disse que voltaria para te buscar.
- Por que você não apareceu quando fiquei viúva?
- Estava com raiva de você.
- Você passou trinta anos com raiva de mim? Que tipo de doido é você Luis?
- Não me ofenda.
- Estou farta. Talvez tivéssemos sido felizes sim Luis, mas não fomos. Você também não teve coragem de me tirar da casa de meus pais a força. Não me convidou para fugir com você. Poderia não ter ido embora com seus pais. Se me amava tanto poderia ter lutado mais por mim. Mas não, se conformou e se fechou em mágoas. Preferiu passar todo esse tempo me culpando. Nó dois fomos fracos Luis, Nós dois. Sou tão culpada quanto você. Só que eu levei a minha vida, tratei de ser feliz e amar o marido que me foi imposto. Meus filhos são lindo e fortes. Meus netos são tudo o que eu poderia sonhar. Tenho um lar e um lindo passado e não fico me lamuriando por causa de algumas besteiras infantis. Éramos duas crianças Luis...
- você chama o amor que sentíamos de besteira infantil?
- Chamo essa discussão de besteira infantil.
- Você teria aceitado se eu te chamasse para fugir. Sem herança. Sem sociedade. Só nós dois numa cabana? – ironicamente.
- Poupe-me de suas ironias Luis, iria com você à qualquer lugar. Te amei por toda a minha vida e pensei em você até quando aceitava e amava meu marido. Mas você não pode me culpar por viver. E acho que você deveria ter feito o mesmo.  As vozes exaltadas chamaram a atenção dos convidados. Aos poucos todas as atenções voltavam-se para o casal. 


Maria, velha amiga de Luis e Odete adentrou o salão vestida de noiva. 
Eles pararam para olhá-la. Era a única coisa de sua geração que havia dado certo. Maria casou-se com Gusmão naquele tempo. Sempre se amaram desde a mais tenra infância. Luis os invejava pois tiveram coragem de burlar as convenções familiares. Maria rompeu com sua família para viver com Gusmão em outra cidade e só voltou depois de vinte anos. Ela teve a coragem que Odete não teve. Isso deixava Luis ainda mais deprimido e transtornado.



- Poderíamos ter sido felizes como eles são... 
Odete não disse nada. Sorriu para Maria e ignorou Luis. Agiu a partir dali como se não o tivesse reencontrado. Concluiu que melhor seria mantê-lo em seu coração como uma doce aventura romântica. Atravessou o salão até a mesa de sua família. Respirou fundo por saber que às vezes o amor não é suficiente..


quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Naquele dia...

Abriu os olhos e algo estava diferente. Deitada de costas olhava para o teto, era o mesmo teto, o mesmo teto que olhava sempre que abria os olhos. Despertava metodicamente. Abria os olhos, olhava o teto, suspirava, gemia, espreguiçava, resmungava, deitava de bruços e dormia até se assustar com a sensação de que havia dormido por horas mas nunca passava de um cochilo de dois minutos.
Não havia diferenças no quarto, nem em sua cama, nem em sua fisionomia no espelho, nem em suas mãos ou suas unhas ruídas. Tudo igual, porém algo havia mudado.
O ritual do desjejum seria o mesmo com pão, café e laticínios. O mesmo “bom dia” de preguiça, o mesmo “já vou”, o mesmo “vai com Deus”.
Aquela sensação não a deixou nem durante o trabalho. Tudo igual porém diferente, sua perspectiva diferente, uma sensação doce, quase um alivio. A tranqüilidade dos justos, dos que fazem a coisa certa e não se arrependem. Jamais.
Faltava algo, um estopim...
Um papel de bala no chão do ônibus dizia “dê um play em sua vida”.

O telefone tocou às 23 horas.
“está acordado?”
“estou”
“a resposta é sim”... (...)
E viveram felizes pelo o sempre que dura a felicidade...

sábado, 24 de outubro de 2009

Balada do Vinho chileno

Deixaram o vinho aberto. Lentamente o doce néctar de safra 1984 apodrecia e quando fora encontrado, naquele apartamento na Barra junto aos corpos, já estava mais avinagrado que o sangue daquelas veias.
Quatro dias depois dos assassinatos, ele ainda jazia ali em cima da mesa, mesmo depois do caso arquivado.Era o ano de 2004, logo, 20 anos depois da colheita das uvas.
Era um vinho tinto chileno de fabricação arcaica, de marca tradicional. As uvas foram pisadas com pés gentis e o processo de fermentação era lento e deliciosamente complicado. Raro! A única palavra para denominá-lo. Era um vinho raro.
Por 8 anos manteve-se intacto na adega rural de seus fabricantes (alquimistas?!). Esteve ao lado de outras safras tão raras quanto ele. Safras de 73 que lubrificavam a revolução.
Após 8 anos, finalmente fora manuseado e levado ao mercado. Leiloado junto com móveis e jóias antigas de uma família decadente. 1984 rendera sua última safra e aquela era sua última garrafa de vinho tinto suave.
No Brasil chegou de avião em 1999, na bagagem de mão de uma velha madame chilena de nariz empinado e seus 5 filhos doutores.
Tanta pompa não disfarçava bijuterias descascadas, nem quinquilharias e bugigangas que balançavam e também a pele flácida daquela senhora balançava e também o vôo na segunda classe balançou um bocado... Balançou tanto que deve ter sido um dos fatores que causaram o ataque cardíaco fulminante na pobre senhora. Morreu ali, no aeroporto mesmo, abraçada a sua valise que trazia seu segundo bem mais valioso. A garrafa do vinho raro de 1984, comprado em 92 alguns meses antes de sua fortuna partir, junto com um marido infiel e tão cardíaco quanto ela.
Morreu três meses depois de deixá-la na miséria, o desgraçado!!!
O enterro de Maria Dolores de Santiago teve de ser no Brasil mesmo, na verdade ela sempre soube que aqui que morreria. Não sabia porque, mas sempre soube. Sem luxo, só uma gaveta onde foi depositado seu corpo flácido e que terá de ser esvaziada depois de 8 anos.
Na leitura do testamento em castelhano, alguns mimos e bobagens para os filhos mais novos, dívidas e as quinquilharias que valem menos que as taxas alfandegárias para trazê-las de Santiago, como alguns armários de madeira de lei empestados de cupins e livros raros, mas velhos.
O primeiro bem mais precioso da velha madame era seu filho mais velho Diego. "Tudo para Dieguito", dizia a matriarca aos empregados, orgulhosa de seu primogênito.
Diego formara-se médico na Califórnia. Seus irmãos, arquitetos, engenheiros, bacharéis em artes, nenhum advogado para evitar a derrota financeira da família.
"Para Dieguito", prosseguia o testamento, "meu bem mais precioso". E para Diego ficou a garrafa de vinho tinto, safra de 1984. Para Diego e seus vícios...
Diego não bebeu do vinho na garrafa como previram seus irmãos, preferiu beber cachaça brasileira e perdê-la na jogatina (seu mais recente vicio).
Duas semanas depois da morte de sua mãe, Diego vagava bêbado com uma legítima 51, ainda em seus tempos de "boa idéia" (porém marginalizada e nem um pouco internacional). Trazia a garrafa debaixo do braço e a cabeça na bela morena que conhecera no bar. O tapa que levara no meio das fuças ainda ardia. Diego viu a luz, era uma luz branca, fria, e ficava cada vez mais próxima, mais próxima... A luz apagou, e agora barulhos estranhos e dores. Como médico Diego constatou: morreria. E morreu.
O velho vinho agora pertencia a Luis Cabral neto, especialista em pôquer, estelionato e agiota nas horas vagas.
Luis ganhou a garrafa de Diego numa honesta partida de bilhar. Foi uma noite de sorte. Andou pelo centro da cidade vadiando como o vagabundo que era com a rara garrafa de vinho numa mão, nem dando muita importância a sua importância. Na outra mão trazia algo mais valioso em sua opinião: meio quilo de erva pura e da boa, legítima inglesa (scank). Venderia a um playboyzinho da Pituba por 1000 pila.
Ia, mas não deu. Enquanto perambulava serelepe topou com a gang de seu arquiinimigo Rubinho ferrugem que já o havia jurado de morte caso cruzasse com ele de novo. Rubinho ferrugem era dono do pedaço entre os Barris e a Lapa, mas por azar de Luis, o ferrugem e sua gang estavam fazendo ronda pela Piedade procurando algum otário para espancar. Foi realmente muita sorte do Rubinho.
Luis levou a maior sova, mas morreu afogado quando tentou fugir pela Lapa, desceu o vale dos Barris e caiu no Dique do Tororó. Levaram 4 horas para emergir o corpo inchado do rapaz. Rubinho assistia tudo pela tv rindo como uma criança que acabou de fazer uma artimanha. Ele colocou a garrafa de vinho chileno na estante e planejava a comemoração de seu feito: Uma noitada daquelas no melhor motel da cidade com Dalila, sua namorada. A galeguinha de 17 anos disse certa vez que já estava quase pronta pra dar, e que teria de ser num lugar bonito e romântico. Feito. Rubinho apressou o preço do melhor motel da cidade, o mais caro. O carro emprestou do Chico, primo e amigo velho dono de oficina. Ele conseguiu um Corsa 2003 vinho, com bancos de couro e ar condicionado, o dono só ia buscar na sexta-feira.
Tempo o bastante para Rubinho convencer a namorada a cabular as aulas noturnas de supletivo e ir com ele ao "lugar mais romântico que o dinheiro poderia comprar", pelo menos por uma noite.
Tanta dedicação por um cabaço tinha uma explicação: Dalila esnobava Rubinho com tanta veemência no passado que fazia ele se sentir um nada. Rejeitado pela menina mais metida e gostosa do bairro, Rubinho decidiu entrar pros "negócios da família", ganhou a vida, fez dinheiro, reformou a casa da mãe e o cabelo. Agora Dalila morria de amores por ele. Namoravam há três meses.
Tudo pronto para a noitada. Rubinho se aprontava para buscar Dalila na saída da Lapa com o Corsa cor-de-vinho. Mas alguém ligava insistentemente para seu celular.
Se Rubinho não atendesse, fugiria da emboscada que lhe aprontaram. Armando, primo de Luis Cabral neto desafiara Rubinho para um pega na Paralela, alegando que se ele não fosse provaria ser um covarde, "sem mais ninguém, men, só eu e tu na pista, sem crocodilagem. Otário!", e assim marcaram às 3 da manhã em frente ao Extra.
Rubinho era traficante, mas era honesto e foi do jeito que combinou, sozinho, sem a gang, só levou a Dalila para torcer por ele e jogar o lenço no chão dando a partida que nem ele via nos filmes de Marlon Brando.
Rubinho chegou com o Corsa 2003 vinho emprestado de seu primo Chico na avenida Paralela às 2 horas e 45 minutos. Não viu uma santa alma e desceu do carro para checar os pneus. Abaixado e de costas o traficante honesto não viu quando Armando apontou a arma para sua nuca. Rubinho morreu com um tiro na cabeça e dois nas costas na frente de Dalila. A galega viu quando Armando o emboscou, mas não achou prudente se envolver. Os tiros chamaram a atenção dos seguranças do Extra que chamaram a polícia. Foi uma perseguição curta e Armando fora preso com Dalila como cúmplice.
Rubinho não tinha herdeiros por isso a casa ficou fechada por um ano até as chuvas de outono, quando a Conder decidiu demoli-la, pois estava em área de risco. Todos os moveis e pertences de Rubinho, inclusive a garrafa de vinho tinto chileno da safra de 84, descuidadamente guardado em cima da estante ao lado da televisão.
A o vinho foi posto numa caixa com outras cachaças e levado ao deposito da prefeitura para leilão.
Porém, quem se interessaria pelos pertences de um traficante mediano? Rubinho e seus pertences foram burocraticamente esquecidos.
Quatro anos esquecido dentro de uma caixa, ficou o vinho tinto chileno raro.
Oscar dos Santos Pereira, 24 anos, estudante, michê e segurança de boates nas horas vagas. Porte atlético e QI com dois dígitos (um bom partido!).
Oscar também era amante (por alguns mimos) de Marta Almeida de Albuquerque, casada, funcionaria pública, concursada, mas uma função muito definida. Passava a maior parte do tempo no depósito. Era adepta de pequenos furtos e só depois de quatro anos decidiu fuçar as coisa de Rubinho. Abriu primeiro a caixa com o vinho chileno que logo fez tilintar uma idéia em sua mente pervertida.
Marta acendia a última vela do castiçal em cima do bar quando tocaram a campainha. Era Oscar, com um sorriso manhoso. Ela o agarrou pelo colarinho da camisa de seda amarela (presentinho de outra amiga) e o beijou puxando-o para dentro.
Riram e Marta abriu a garrafa de vinho chileno. O raro vinho foi servido a Oscar numa taça de vidro para chope. Marta bebericava o vinho curtindo o sabor leve e doce enquanto Oscar sorveu o liquido num só gole como se fosse um trago de pinga qualquer.
Marta preparava-se para servir Oscar outra vez quando ouviu o ruído da chave destrancando a porta. Seu sangue gelou.
- Zeca?!
- Sua desgraçada, eu sabia.
- Não!
Cinco tiros foram disparadas naquela noite no bairro da Barra. Quatro saíram da arma de Zeca. Dois atingiram Marta no peito e na barriga. Um atingiu a parede e o outro matou Oscar depois de quatro horas de hemorragia.
Zeca se atirou do 8° andar do edifício onde morou por dez anos com Marta, sua primeira namorada.
O segurança do bar atingido acidentalmente quando tentava apartar uma briga, foi internado com estilhaços de bala no abdômen, levou alguns pontos, mas passa bem.

Do Novo Coração de Dona Maria

Desde os 59 anos, quando teve o seio esquerdo amputado por causa de um câncer, dona Maria Celestina Galvão e Mattos, se prepara para a morte. Hoje, depois da oitava safena, da quinta cirurgia para adaptação da prótese espinhal e dois transplantes de rim, D. Maria se sente quase uma outra pessoa. Talvez ainda não o seja por completo, mas pode vir a ser depois desse fim de semana, em que receberá um coração novinho em folha doado pela família de uma jovem que teve morte encefálica.
Um novo coração definitivamente não estava nos planos de D. Maria Celestina, mal havia aprendido a domar o seu próprio, como poderia agora aos 87 anos receber um outro completamente desconhecido?
Curiosa do jeito que só ela poderia ser, usou da persuasão típica das senhoras de 87 anos para convencer o Dr. Luis Almeida (médico da família já há muito tempo, desde a morte do primeiro filho de D. Maria, aos 35 anos) a dizer Tim-tim-por-tim-tim tudo o que sabia sobre a origem daquele coração.
Com os dados da menina, atingida pelos escombros de um edifício que desabou, teve traumatismo craniano e morreu duas horas depois de chegar ao hospital, foi facinho encontrá-la, pois deu tudo no Jornal Nacional.
E lá foi D. Maria Celestina Galvão e Mattos, do alto dos seus 87 anos de idade, tomar sozinha e em sigilo, o primeiro vôo para Caraguatatuba-SP, a fim de conhecer melhor o novo coração que lhe foi arranjado. Sem falar que a praia lhe faria muito bem. Em casa deixou um bilhete, "vou encontrar meu novo coração. PS: Não me esperem para o jantar".
Lá chegando, nas primeiras horas da manhã, encontrou uma família em frangalhos. Após se apresentar como herdeira legitima do coração da jovem defunta, nada mais do que perplexidade...
Então era isso, a morte de um é a imortalidade do outro.
Sobre a menina morta de nome Isabel de Albuquerque da Silva, dona Maria descobriu (após interpretar os urros da mãe que perdera sua única filha) que o sábado reservado agora para sua cirurgia, outrora se tratava do mesmo sábado aguardado para o casamento da jovem. Depois de algumas horas e com aquele mesmo carisma reservado somente aos velhinhos (que parecem meio carentes) de 87 anos, dona Maria conseguiu arrancar informações mais profundas e depoimentos mais íntimos sobre a pobre Isabel. "-Ela ia se casar virgem sabia? – Falava a mãe aos prantos – O Mario (o noivo) sempre foi um bom menino e eles cresceram juntos. Ela sempre gostou só dele e ele também, coitado, sempre gostou só dela. Disse que queria morrer junto com ela...". Era de partir o coração.
De fato, era um coração "novinho em folha", constatou dona Maria. Sem dores, sem as agruras dos amores, se tratava de um coração novinho em folha.
Naquele mesmo final de tarde, D. Maria correu para tomar o vôo de volta a capital. Tinha de se preparar para mais uma cirurgia.
Chegou em casa às dez da noite. Mal pôs os pés para dentro, sentiu o sopro gelado dos maus presságios em seu cangote. Danusa, que era empregada, enfermeira, governanta, cozinheira e nas horas vagas confidente fiel, não fora recebê-la na porta como semprefazia. "Mas dona Maria, a senhora não pode ficar saindo por aí sozinha como se tivesse 20 anos de idade...", ela sempre dizia a mesma coisa.
Oras, para uma senhora de 87 anos que viaja sozinha, não tem necessidade de ser recebida à porta, mesmo assim, "estranho", pensou.
Dona Maria Celestina sentou-se sozinha no sofá da sala, parecia está sozinha na casa. Olhou os retratos na estante, pensou em seus filhos. Dos cinco que vingaram(sim, porque gestações foram 9), apenas um sobrevivera. Era o mais novo, filho de seu quarto casamento. Aliás, casamentos, foram 5, quatro vezes viúva, nada mal! Dona Maria percebeu que a morte a rondava há tempos, mas nunca a tacou diretamente, por que será? "O diabo não deve aceitar concorrência", constatou. Se sentiu velha. Estava cansada. Viajar sozinha foi uma loucura. Porém a única coisa que poderia temer, a morte, parecia passar só por perto dela, sempre. Levantou-se do sofá lentamente, sutilmente mais rápido do que a idade lhe permitia. Estava em boa forma. O corpo era esbelto, perdera de três a quatro centímetros na altura, mas semprefora muito alta e esguia. Os olhos pareciam mais claros, talvez pelo principio de catarata, estavam num azul celeste. Morava com Danusa e seu quinto marido, Oscar, dez anos mais jovem que ela, mas depois que se passa da casa dos sessenta, dez anos não fazem a menos diferença. Por toda casa térrea havia fotos antigas. Mas as imagens pairavam em suas lembranças. Lembrou-se de seus finados maridos, amou a todos com tanta intensidade... Cada perda parecia uma dor maior. Dona Maria sempreteve essa mania de recomeçar as coisas. Mas dessa vez... só dessa vez queria terminar.
Dona Maria Celestina Galvão e Mattos andou pelo corredor e encontrou a porta de seu quarto entreaberta. 87 anos de idade e não perdia velhas manias, como essa que adquiriu aos 5: nunca entrava em qualquer lugar sem antes checar as paredes, o teto e atrás da porta. Tinha pavor de baratas e nunca esqueceu o dia em que uma caiu do teto em sua cabeça. Poderia dizer, certamente, que tem mais medo de baratas do que da morte.
A cama estava vazia, porém desfeita. Por onde andaria aquele velho rabugento? Era quinta-feira, o bingo da igreja era na sexta. Dona Maria deitou-se para descansar. Dormiu e sonhou. Sonhou os mesmo sonhos de sua juventude, a maioria deles realizados... Ir à Paris, ter filhos, escrever um livro, amar intensamente...
Acordou no meio da noite com uma sensação de tristeza e uma pergunta que se repetia, o que mais restara para ser feito? Se até os sonhos já se esgotavam. "Provavelmente ao invés de morrer, devo ser aos poucos esquecida", pensou ao mesmo tempo em que se perguntava por onde andaria seu velho Oscar.
Ouviu vozes, na verdade já as ouvia antes de acordar, achou que se tratava de um sonho, "alucinações de velha", mas agora estavam mais claras e audíveis. Parecia ser Danusa. Mas lembrou-se instantaneamente, hoje era sua noite de folga. Como poderia ter esquecido? Sentia-se velha, sentia, mais do que nunca, como uma velha senhora de 87 anos. As vozes ficaram mais intensas. Dona Maria levantou-se e caminhou lentamente a passos de uma senhora de 87 anos.
Ao chegar à sala, teve certeza de que estava tendo uma alucinação. Era Danusa, não, não era. Era as costas e o imenso rabo empinado de Danusa, negona carioca de 62 anos (20 só de reposição hormonal), completamente nua, subindo e descendo caquética e entrevada pela artrite. E, debaixo dela, o velho Oscar, provavelmente entupido até o goto de Viagra.
Pela primeira vez em seus 87 anos, dona Maria se vira traída. Perdera o chão. Pela primeira vez em seus 87 anos de vida, dona Maria sentiu que fosse desmaiar. E o fez. A morte sempre lhe perseguia sem rumo, mas dessa vez era a vida quem lhe pregava peças.
Abriu os olhos, muita luz "era a morte, finalmente", pensou. Não, não era. Acabara de sair da sala de cirurgia. Estava internada há três dias. Durante o desmaio, dona Maria celestina teve uma parada cardíaca e teria morrido se Danusa não agisse rápido com o desfibrilador portátil. Chegou ao hospital inconsciente e foi direto à UTI, enquanto os médicos preparavam o transplante às pressas. Isso mesmo. D. Maria quase conseguiu dessas vez, mas agora tinha involuntariamente um novo coração e uma expectativa média de vida de 2 a 5 anos.
Os médicos comemoraram seu sucesso por mais uma vida salva(!).
Duas semanas depois, D. Maria celestina voltava para casa com seu coração novinho em folha e parecia nem sentir mais suas dores do passado... Mesmo assim ao chegar em casa e se deparar com Danusa toda sorridente à porta, não deixou por menos a traição e a despediu com a vivacidade de uma senhora de 50 anos. "Eu devia ter deixado a senhora morrer", Danusa sempre foi mal criada. Em certo ponto, tinha razão.
Aos 87 anos, dona Maria Celestina Galvão e Mattos, que nunca havia trocado o sobrinome do seu primeiro marido, tinha um coração novinho para novas dores e dentro de duas semanas se tornaria uma mulher divorciada.
Faltando um mês para completar 88 anos, planejou sozinha sua festa e contratou o bufê por conta própria. Dizem que foi uma festa especial e dona Maria parecia não ter saído ainda da casa dos 70.
Desde que acordara com seu novo coração, D. Maria sentia suas batidas desritmadas, como se mais aceleradas do que ela mesma. Deveria ser falta de costume, posto que nos exames de adaptação nada constava de anormal.
Certa manhã, sentiu uma louca vontade de ir ao cinema e foi. Viu um romance para adolescestes e chorou como tal. Sentia indefesa e confusa.
Na volta para casa, de ônibus, pois não tinha coordenação para dirigir, avistou uma praça cheia de crianças, velhinhos e casais de namorados. Ficou tentada a descer. Tinha o espírito livre e foi exatamente o que fez.
Sentou-se próxima a uma fonte e suspirou. Pombos. Risadas. Pombos.
Nunca, desde que havia entrado na chamada terceira idade, dona Maria Celestina Galvão e Mattos, havia se sentado no banco de uma praça para passar a tarde calma. No pôr-do-sol decidiu ir embora, mas voltaria outro dia.
Dona Maria fez nova vista a família de Isabel, dessa vez acompanhada, pois adquiriu misteriosamente um receio pela solidão, e finalmente conheceu Mario. Quando voltou para casa contou a todos que se sentiu tão apaixonada por ele que teve vontade de chorar (mas só depois de beijá-lo, pois era realmente lindo de morrer!).
Os cinco anos de vida de dona Maria passaram e quem morreu foi o velho Oscar. A Danusa, viúva aos 67 anos, não foi tão rápida com o desfibrilador dessa vez.
Dona Maria, vai ganhar outro bisneto e decidiu volta a Paris. Também parece estar de namorico novo. É o seu João, jardineiro aposentado que sempreleva flores pra ela na praça do centro. Dessa vez não deve rolar casamento pois dona Maria diz estar passando por uma fase meio egoísta e introspectiva. Do alto de seus 92 anos, D. Maria celestina Galvão e Mattos está mais disposta a se deixar levar pela vida.