Entendi que precisava de um lugar além da minha caixola para guardar

bem dobradinhos alguns contos,

alguns causos outros fatos e memórias...

Numa caixa não cabia, é preciso muito papel.

Então aqui esta bom...

sábado, 24 de outubro de 2009

Do Novo Coração de Dona Maria

Desde os 59 anos, quando teve o seio esquerdo amputado por causa de um câncer, dona Maria Celestina Galvão e Mattos, se prepara para a morte. Hoje, depois da oitava safena, da quinta cirurgia para adaptação da prótese espinhal e dois transplantes de rim, D. Maria se sente quase uma outra pessoa. Talvez ainda não o seja por completo, mas pode vir a ser depois desse fim de semana, em que receberá um coração novinho em folha doado pela família de uma jovem que teve morte encefálica.
Um novo coração definitivamente não estava nos planos de D. Maria Celestina, mal havia aprendido a domar o seu próprio, como poderia agora aos 87 anos receber um outro completamente desconhecido?
Curiosa do jeito que só ela poderia ser, usou da persuasão típica das senhoras de 87 anos para convencer o Dr. Luis Almeida (médico da família já há muito tempo, desde a morte do primeiro filho de D. Maria, aos 35 anos) a dizer Tim-tim-por-tim-tim tudo o que sabia sobre a origem daquele coração.
Com os dados da menina, atingida pelos escombros de um edifício que desabou, teve traumatismo craniano e morreu duas horas depois de chegar ao hospital, foi facinho encontrá-la, pois deu tudo no Jornal Nacional.
E lá foi D. Maria Celestina Galvão e Mattos, do alto dos seus 87 anos de idade, tomar sozinha e em sigilo, o primeiro vôo para Caraguatatuba-SP, a fim de conhecer melhor o novo coração que lhe foi arranjado. Sem falar que a praia lhe faria muito bem. Em casa deixou um bilhete, "vou encontrar meu novo coração. PS: Não me esperem para o jantar".
Lá chegando, nas primeiras horas da manhã, encontrou uma família em frangalhos. Após se apresentar como herdeira legitima do coração da jovem defunta, nada mais do que perplexidade...
Então era isso, a morte de um é a imortalidade do outro.
Sobre a menina morta de nome Isabel de Albuquerque da Silva, dona Maria descobriu (após interpretar os urros da mãe que perdera sua única filha) que o sábado reservado agora para sua cirurgia, outrora se tratava do mesmo sábado aguardado para o casamento da jovem. Depois de algumas horas e com aquele mesmo carisma reservado somente aos velhinhos (que parecem meio carentes) de 87 anos, dona Maria conseguiu arrancar informações mais profundas e depoimentos mais íntimos sobre a pobre Isabel. "-Ela ia se casar virgem sabia? – Falava a mãe aos prantos – O Mario (o noivo) sempre foi um bom menino e eles cresceram juntos. Ela sempre gostou só dele e ele também, coitado, sempre gostou só dela. Disse que queria morrer junto com ela...". Era de partir o coração.
De fato, era um coração "novinho em folha", constatou dona Maria. Sem dores, sem as agruras dos amores, se tratava de um coração novinho em folha.
Naquele mesmo final de tarde, D. Maria correu para tomar o vôo de volta a capital. Tinha de se preparar para mais uma cirurgia.
Chegou em casa às dez da noite. Mal pôs os pés para dentro, sentiu o sopro gelado dos maus presságios em seu cangote. Danusa, que era empregada, enfermeira, governanta, cozinheira e nas horas vagas confidente fiel, não fora recebê-la na porta como semprefazia. "Mas dona Maria, a senhora não pode ficar saindo por aí sozinha como se tivesse 20 anos de idade...", ela sempre dizia a mesma coisa.
Oras, para uma senhora de 87 anos que viaja sozinha, não tem necessidade de ser recebida à porta, mesmo assim, "estranho", pensou.
Dona Maria Celestina sentou-se sozinha no sofá da sala, parecia está sozinha na casa. Olhou os retratos na estante, pensou em seus filhos. Dos cinco que vingaram(sim, porque gestações foram 9), apenas um sobrevivera. Era o mais novo, filho de seu quarto casamento. Aliás, casamentos, foram 5, quatro vezes viúva, nada mal! Dona Maria percebeu que a morte a rondava há tempos, mas nunca a tacou diretamente, por que será? "O diabo não deve aceitar concorrência", constatou. Se sentiu velha. Estava cansada. Viajar sozinha foi uma loucura. Porém a única coisa que poderia temer, a morte, parecia passar só por perto dela, sempre. Levantou-se do sofá lentamente, sutilmente mais rápido do que a idade lhe permitia. Estava em boa forma. O corpo era esbelto, perdera de três a quatro centímetros na altura, mas semprefora muito alta e esguia. Os olhos pareciam mais claros, talvez pelo principio de catarata, estavam num azul celeste. Morava com Danusa e seu quinto marido, Oscar, dez anos mais jovem que ela, mas depois que se passa da casa dos sessenta, dez anos não fazem a menos diferença. Por toda casa térrea havia fotos antigas. Mas as imagens pairavam em suas lembranças. Lembrou-se de seus finados maridos, amou a todos com tanta intensidade... Cada perda parecia uma dor maior. Dona Maria sempreteve essa mania de recomeçar as coisas. Mas dessa vez... só dessa vez queria terminar.
Dona Maria Celestina Galvão e Mattos andou pelo corredor e encontrou a porta de seu quarto entreaberta. 87 anos de idade e não perdia velhas manias, como essa que adquiriu aos 5: nunca entrava em qualquer lugar sem antes checar as paredes, o teto e atrás da porta. Tinha pavor de baratas e nunca esqueceu o dia em que uma caiu do teto em sua cabeça. Poderia dizer, certamente, que tem mais medo de baratas do que da morte.
A cama estava vazia, porém desfeita. Por onde andaria aquele velho rabugento? Era quinta-feira, o bingo da igreja era na sexta. Dona Maria deitou-se para descansar. Dormiu e sonhou. Sonhou os mesmo sonhos de sua juventude, a maioria deles realizados... Ir à Paris, ter filhos, escrever um livro, amar intensamente...
Acordou no meio da noite com uma sensação de tristeza e uma pergunta que se repetia, o que mais restara para ser feito? Se até os sonhos já se esgotavam. "Provavelmente ao invés de morrer, devo ser aos poucos esquecida", pensou ao mesmo tempo em que se perguntava por onde andaria seu velho Oscar.
Ouviu vozes, na verdade já as ouvia antes de acordar, achou que se tratava de um sonho, "alucinações de velha", mas agora estavam mais claras e audíveis. Parecia ser Danusa. Mas lembrou-se instantaneamente, hoje era sua noite de folga. Como poderia ter esquecido? Sentia-se velha, sentia, mais do que nunca, como uma velha senhora de 87 anos. As vozes ficaram mais intensas. Dona Maria levantou-se e caminhou lentamente a passos de uma senhora de 87 anos.
Ao chegar à sala, teve certeza de que estava tendo uma alucinação. Era Danusa, não, não era. Era as costas e o imenso rabo empinado de Danusa, negona carioca de 62 anos (20 só de reposição hormonal), completamente nua, subindo e descendo caquética e entrevada pela artrite. E, debaixo dela, o velho Oscar, provavelmente entupido até o goto de Viagra.
Pela primeira vez em seus 87 anos, dona Maria se vira traída. Perdera o chão. Pela primeira vez em seus 87 anos de vida, dona Maria sentiu que fosse desmaiar. E o fez. A morte sempre lhe perseguia sem rumo, mas dessa vez era a vida quem lhe pregava peças.
Abriu os olhos, muita luz "era a morte, finalmente", pensou. Não, não era. Acabara de sair da sala de cirurgia. Estava internada há três dias. Durante o desmaio, dona Maria celestina teve uma parada cardíaca e teria morrido se Danusa não agisse rápido com o desfibrilador portátil. Chegou ao hospital inconsciente e foi direto à UTI, enquanto os médicos preparavam o transplante às pressas. Isso mesmo. D. Maria quase conseguiu dessas vez, mas agora tinha involuntariamente um novo coração e uma expectativa média de vida de 2 a 5 anos.
Os médicos comemoraram seu sucesso por mais uma vida salva(!).
Duas semanas depois, D. Maria celestina voltava para casa com seu coração novinho em folha e parecia nem sentir mais suas dores do passado... Mesmo assim ao chegar em casa e se deparar com Danusa toda sorridente à porta, não deixou por menos a traição e a despediu com a vivacidade de uma senhora de 50 anos. "Eu devia ter deixado a senhora morrer", Danusa sempre foi mal criada. Em certo ponto, tinha razão.
Aos 87 anos, dona Maria Celestina Galvão e Mattos, que nunca havia trocado o sobrinome do seu primeiro marido, tinha um coração novinho para novas dores e dentro de duas semanas se tornaria uma mulher divorciada.
Faltando um mês para completar 88 anos, planejou sozinha sua festa e contratou o bufê por conta própria. Dizem que foi uma festa especial e dona Maria parecia não ter saído ainda da casa dos 70.
Desde que acordara com seu novo coração, D. Maria sentia suas batidas desritmadas, como se mais aceleradas do que ela mesma. Deveria ser falta de costume, posto que nos exames de adaptação nada constava de anormal.
Certa manhã, sentiu uma louca vontade de ir ao cinema e foi. Viu um romance para adolescestes e chorou como tal. Sentia indefesa e confusa.
Na volta para casa, de ônibus, pois não tinha coordenação para dirigir, avistou uma praça cheia de crianças, velhinhos e casais de namorados. Ficou tentada a descer. Tinha o espírito livre e foi exatamente o que fez.
Sentou-se próxima a uma fonte e suspirou. Pombos. Risadas. Pombos.
Nunca, desde que havia entrado na chamada terceira idade, dona Maria Celestina Galvão e Mattos, havia se sentado no banco de uma praça para passar a tarde calma. No pôr-do-sol decidiu ir embora, mas voltaria outro dia.
Dona Maria fez nova vista a família de Isabel, dessa vez acompanhada, pois adquiriu misteriosamente um receio pela solidão, e finalmente conheceu Mario. Quando voltou para casa contou a todos que se sentiu tão apaixonada por ele que teve vontade de chorar (mas só depois de beijá-lo, pois era realmente lindo de morrer!).
Os cinco anos de vida de dona Maria passaram e quem morreu foi o velho Oscar. A Danusa, viúva aos 67 anos, não foi tão rápida com o desfibrilador dessa vez.
Dona Maria, vai ganhar outro bisneto e decidiu volta a Paris. Também parece estar de namorico novo. É o seu João, jardineiro aposentado que sempreleva flores pra ela na praça do centro. Dessa vez não deve rolar casamento pois dona Maria diz estar passando por uma fase meio egoísta e introspectiva. Do alto de seus 92 anos, D. Maria celestina Galvão e Mattos está mais disposta a se deixar levar pela vida.