Entendi que precisava de um lugar além da minha caixola para guardar

bem dobradinhos alguns contos,

alguns causos outros fatos e memórias...

Numa caixa não cabia, é preciso muito papel.

Então aqui esta bom...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Analu

O vento chegava manso espalhando o som de galhos de bambu se tocando e os cheiros vários de mangas, cajus e araçás.
Também transtornava os cabelos de Ana Luisa tão plácida brincando de assustar as melissas, aquelas plantinhas de folhas pequenas que se fecham ao leve toque. Que se chamam melissas, a gente só descobriu depois de grandes, e depois de grandes, também nos separamos. Chamávamos as plantinhas de “sai da janela que lá vem o boi”, e Ana Luisa ainda era apenas Analu. A gente nunca devia crescer. Crescer pra mim só serviu para descobrir o significado da palavra mediocridade. Ah sim, essa é uma palavra que repito muitas vezes em minha autobiografia: M-E-D-I-O-C-R-I-D-A-D-E...
Antes não ter crescido. Antes continuar sem saber das melissas, antes manter aquela ignorância inocente de acreditar que se chega à China cavando um buraco até o outro lado do mundo. Aquela certeza incoerente das pequenas verdades da vida. Antes não ter crescido nunca para não precisar ver Aninha se tornar a Senhora Ana Luisa de Andrade.
Mas aquela era uma tarde fresca de verão, como muitas tardes que passei com Analu no quintal de sua casa brincado de aventura, subindo em árvores e colhendo frutas frescas.
Éramos amigos desde a mais terna infância, mas é claro, só percebi minha paixão desesperada por ela anos mais tarde, na adolescência, quando a vi nos braços de Lucas, também um grande amigo... Mas Lucas (ou senhor Andrade, como é conhecido hoje em dia) nunca viu em Analu o que eu vi. Nunca conheceu sua verdadeira essência. Analu tinha um brilho, um sorriso, algo secreto que ela só mostrava para mim. E naquela tarde ela sorria assim, um sorriso misterioso de olhar peralta. Uma Monalisa tupiniquim.
- vem aqui Guilherme, quero lhe mostrar uma coisa...
Ela agarrou a minha mão e fomos nos encostar no tronco da ultima mangueira, a mais escondida do quintal, que na nossa imaginação era um bosque encantado de unicórnios e pinhos.
Analu trazia consigo uma leve sensualidade de menina brejeira em seus cachos longos, seus olhos grandes e boca pequena de lábios cor de romã. A pele tão serena debaixo do vestido de chita sem mangas. Gostava de babados, rendas e casas de abelhas e laços e no pescoço a medalha da virgem que fora de sua mãe e de sua avó e hoje deve pender no pescoço de sua filha mais nova.
E eu, menino pio, magro como um graveto nas calças curtas e camisa de algodão só acatava as ordens dela, tão imponente em tudo o que fazia. Havia tanta volúpia naquela inocência e vice e versa.
- Ouça Gui, ela começou, você é meu melhor amigo, meu fiel escudeiro, aquele a quem eu conto todos os meus segredos mais secretos...
E eu ouvia sua voz de vespa com o peito inflado orgulhoso. Ouvia com a postura de um servo da coroa ao receber um elogio: Humilde, porém cheio de nobreza. Mas ao mesmo tempo não ouvia nada. Toda aquela ladainha de melhores amigos era tão repetitiva. Ela sempre dizia as mesmas coisas, fazia os mesmo rodeios antes de dizer o que realmente queria. De repente:
- Quero que você me beije...
Fui arremessado violentamente para fora dos meus devaneios de Don Quixote.
- O que você disse?
- Ah, eu sabia! E agora, se não for você que eu confio, quem mais será?
Sim, eu havia escutado. Ela ordenou que eu a beijasse. Não, ainda não havia a paixão, nem a adolescência. Éramos duas crianças de imaginação fluente. Ela queria um beijo, aquilo parecia-me um tanto quanto nojento, asqueroso, mas ao mesmo tempo excitou-me a idéia de beijar os lábios de uma garota. Apesar de que para mim, Analu não era bem uma garota. Era apenas, ou melhor, nada menos que a minha melhor amiga. Talvez eu a visse como um ser assexuado, uma ninfa ou heroína...
- Beijar você Analu, mas pra que?
- Para saber como é, oras.
- Nojento, creio.
- Não deve ser não. Minha mãe sempre beija meu pai. E disse-me que quando tivermos idade também vamos beijar, talvez até você e eu viremos namorados. Mas o fato é quero saber como é, para já ter experiência quando for beijar.
- Mas se seremos namorados, pra que você quer experimentar agora, por que não espera até a gente crescer?
- Por que quero saber agora. E se eu quiser namorar outro?
Tinha razão. Acabei concordando afinal.
- Muito bem, feche os olhos, a gente conta até três e beija. Tá?
Segui as ordens dela, como o de costume. Fechamos os olhos e contei até três mentalmente. Mas na hora do beijo, receei que ela desistisse, então não saí do lugar. Analu encostou seus lábios nos meus e me abraçou. Eu abri os olhos de susto. Vi seus olhos fechados, a boca num leve bico de passarinho, a respiração parada.
Senti uma onda de calor me invadir, meus movimentos não obedeciam a minha razão. Abracei Analu e a puxei para mais perto de mim. Pus minha língua em sua boca, mas nada disso premeditadamente calculado. Talvez só instinto e por instinto também Analu recebeu minha língua no calor de sua boca e nos beijamos entre dentes de mão desajeitadas.
5 ou 7 segundos, foi quanto durou nosso primeiro beijo. Talvez menos, pra mim muito mais.
Analu afastou-me ofegante e um tanto encabulada. Eu também, ainda sem jeito com as mãos, olhava as pontas dos dedos dos pés ruborizados.Até que ela quebrou o silêncio.
- vamos brincar de selva?
Sorrimos e voltamos a correr por aquele quintal, para nós tão imenso.
Aquela foi a primeira e ultima vez que beijei Analu. Quando crescemos ela apaixonou-se por Lucas. Nunca contei para ela do que sentia. Foi uma escolha, talvez não a mais certa, mas a minha escolha. Amei Analu até o dia em que percebi que não amava mais. E foi assim sempre, amar uma mulher, até o derradeiro dia ou o primeiro dia em que não se ama mais...

4 comentários:

Will disse...

Bia, sou fã de contos...sabe, daqueles que não podem ver antologias...sabe, aquelas coleções "25 contos de fulano de tal..."? Compro todas...rsrsrs

Muito bom o "Analu", gostei do Guilherme, do cenário, das descrições, tudo nos leva a criar empatia com o (a?) personagem, mas os diálogos são adultos (é de propósito?)!!!

rsrsrsr, continue escrevendo para eu não ter de comprar livros!!!

Will disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
[M]. Atahualpa disse...

Parece que as coisas cada vez mais se transformam em conveniências... Espero não estrapolado o conto... Paz e valeu a visita ao meu blog. Volte sempre!

Sylvio de Alencar. disse...

Uma agradável surpresa.
Comecei a ler mecânicamente (gosto de contos), comecei a me interessar, peguei o ritmo (que flui muito bem), e fui..., palavra por palavra, curtindo, até o fim.
Muito legal, e gostoso de se ler.
Abrçs, Bia.