Entendi que precisava de um lugar além da minha caixola para guardar

bem dobradinhos alguns contos,

alguns causos outros fatos e memórias...

Numa caixa não cabia, é preciso muito papel.

Então aqui esta bom...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Trocando em miúdos...

Encontraram-se depois de muito tempo. Não se viam há mais de quarenta anos. 

O homem velho a passos trôpegos conduzia a velha dama pelo salão. Bailavam como se bailando estivessem naquele tempo em que sorriam com ternura e sonhavam com a eternidade. Estavam apaixonados. Mas agora tudo eram meras lembranças... 


O tempo havia sido gentil com a bela senhora. Os cabelos louros um pouco grisalhos mantiveram a macies dos fios. As mão de pianista e os traços finos do rosto delicadamente marcados pela idade.

Ele estava mais velho do que deveria, ela pensou. Pode ser por trabalhar demais, sempre trabalhou demais. Ela lembrava dele bem jovem debruçado sobre os cadernos de contabilidade dos negócios do pai, “Luis, vamos correr até o lago.”, “depois Odete, agora tenho que terminar isso...”, ele sempre trabalhou demais.
Por que será que nunca se casou?
Odete havia se casado, teve filhos, netos, estava prestes a ganhar um bisneto. Teve uma família feliz, cumpriu sua obrigação de mulher. Tornou-se uma dama respeitada por toda a sociedade. Quando ficou viúva aos 45 anos, manteve-se de luto por mais de um ano apesar de já extinta essa tradição. Odete era tradicional. Foi criada tradicionalmente. Não poderia ser diferente. Não poderia.

A musica parou de tocar. Eram embalados pela melodia de suas lembranças. O centro do salão ficou vazio. Pararam tímidos ao perceber que eram os únicos ainda a dançar. 


Odete riu baixinho e enterrou a cabeça no peito de Luis como costumava fazer no passado. Sentiu o cheiro de suas roupas, parecia o mesmo de sua adolescência, ouviu os batimentos de seu coração, acelerados disritmados com a valsa. Olhou para ele timidamente e sorriu – Acho que a nossa música é eterna.

Ele não disse nada. Sabia do que ela estava falando. Ela sabia qual a música que o embalava pois para ela a música era a mesma. Ainda lia seus pensamentos, ele imaginou. 


- Vamos sentar?

- Sim. Ele falou mas não sorriu. Quando saiu de casa naquela noite estava decidido a sorrir, sorrir muito. Fazer piadas sobre seu passado juntos. Sim, sempre soube que algum dia riria daquilo tudo, de toda aquela mágoa boba. Depois de tanto tempo, todo aquele sofrimento seria como uma palavra difícil repetida muitas vezes... Perderia completamente o sentido. 


Passara quarenta anos esperando para rir de seu passado. Mas naquela noite, com ela. Estava lá ao seu alcance. Linda como em sua adolescência e sorrindo com o mesmo sorriso que ele podia se lembrar. Não conseguia achar sem sentido seus sentimentos. Não conseguia rir de seu passado que se tornava cada vez mais recente e doloroso. Ela o deixou. Ela o feriu e a cicatriz quase aberta estancava cada vez menos a sua angustia. 
Ela o magoou e ele a odiava. Queria matá-la e vingar-se. Queria que ela pedisse perdão e falasse de como sofrera todos esses anos sentindo sua falta e arrependida por ter feito uma má escolha. Queria que ela dissesse o quanto o ama. Ele a perdoaria, pois ela a amava. 
Sentaram-se numa boa mesa. De frente um para o outro.

- Você está tão calado, não mudou nada. Parece que foi ontem que te vi naquela mesa estudando como um louco aquela engenharia. Soube que você...
- Por que você não me esperou? Ele a interrompeu de repente.
Odete olhou para o chão depois fixou o olhar na banda que voltou a tocar. 


- Não precisamos falar sobre isso.- Olhava para frente como se visse através de Luis. 
Luis fechou os olhos e abaixou a cabeça – você não imagina que poderíamos ter sido felizes?- Ele encarou Odete.

Ela ainda olhava a banda desconcentrada – Por que você ainda se tortura e me tortura com isso Luis? Não era para ser, não podíamos ter ficado juntos, não era para acontecer...
- Eu não entendo.
- Quem não entende sou eu – Odete o encarou revoltosa – Como você ainda pode querer falar disso depois de tanto tempo. Veja Luis, essa é a festa de bodas de Maria, está completando cinqüenta anos de casamento com Gusmão. Se não fosse essa festa, nunca teríamos nos encontrado e...
- Só por que você me abandonou.- Luis levantou a voz.
- Escute, eu fiz o que era certo. Que futuro teríamos? Eu não tive escolha, Nem sabia se você voltaria mesmo. Tive que fazer o que me foi ordenado pelo meu pai. Tenho que respeitar a honra da minha família.
- Eu disse que voltaria para te buscar.
- Por que você não apareceu quando fiquei viúva?
- Estava com raiva de você.
- Você passou trinta anos com raiva de mim? Que tipo de doido é você Luis?
- Não me ofenda.
- Estou farta. Talvez tivéssemos sido felizes sim Luis, mas não fomos. Você também não teve coragem de me tirar da casa de meus pais a força. Não me convidou para fugir com você. Poderia não ter ido embora com seus pais. Se me amava tanto poderia ter lutado mais por mim. Mas não, se conformou e se fechou em mágoas. Preferiu passar todo esse tempo me culpando. Nó dois fomos fracos Luis, Nós dois. Sou tão culpada quanto você. Só que eu levei a minha vida, tratei de ser feliz e amar o marido que me foi imposto. Meus filhos são lindo e fortes. Meus netos são tudo o que eu poderia sonhar. Tenho um lar e um lindo passado e não fico me lamuriando por causa de algumas besteiras infantis. Éramos duas crianças Luis...
- você chama o amor que sentíamos de besteira infantil?
- Chamo essa discussão de besteira infantil.
- Você teria aceitado se eu te chamasse para fugir. Sem herança. Sem sociedade. Só nós dois numa cabana? – ironicamente.
- Poupe-me de suas ironias Luis, iria com você à qualquer lugar. Te amei por toda a minha vida e pensei em você até quando aceitava e amava meu marido. Mas você não pode me culpar por viver. E acho que você deveria ter feito o mesmo.  As vozes exaltadas chamaram a atenção dos convidados. Aos poucos todas as atenções voltavam-se para o casal. 


Maria, velha amiga de Luis e Odete adentrou o salão vestida de noiva. 
Eles pararam para olhá-la. Era a única coisa de sua geração que havia dado certo. Maria casou-se com Gusmão naquele tempo. Sempre se amaram desde a mais tenra infância. Luis os invejava pois tiveram coragem de burlar as convenções familiares. Maria rompeu com sua família para viver com Gusmão em outra cidade e só voltou depois de vinte anos. Ela teve a coragem que Odete não teve. Isso deixava Luis ainda mais deprimido e transtornado.



- Poderíamos ter sido felizes como eles são... 
Odete não disse nada. Sorriu para Maria e ignorou Luis. Agiu a partir dali como se não o tivesse reencontrado. Concluiu que melhor seria mantê-lo em seu coração como uma doce aventura romântica. Atravessou o salão até a mesa de sua família. Respirou fundo por saber que às vezes o amor não é suficiente..


6 comentários:

Anônimo disse...

Caraca!!! "são uns contos aí que eu escrevo", não se vc é modesta ou se não tem noção do talento que tem..


Amanda

Ferdi disse...

Que triste, que real.. :/

Valter disse...

Eita biazudaaa vou comprar o livro

Sylvio de Alencar. disse...

Amar alguém não exige do universo que a pessoa amada esteja com você.

O conto: lindo.
Muito real os sentimentos envolvidos, as vidas levadas, vividas ou não.
Como ressentimentos amarguram uma pessoa, 'é como tomar veneno, esperando que a outra pessoa morra'.
Tenho para mim que o amor não deve ser produto de carências..., não deve nascer delas.
Acho também que a vida é tãão grande, tem taanto valor; porque não usá-la então, senão para dignificar o que se ama?

Parabéns, Bia! É uma escritora nata.

Will disse...

Sabe, adoro contos e crônicas. E os seus são maravilhosos. Realmente vou querer a Antologia.

ps.: dê uma revisada, você com certeza postou sem revisar ou com muito sono! Bjo.

Caroline. disse...

Nuss *___________*