Entendi que precisava de um lugar além da minha caixola para guardar

bem dobradinhos alguns contos,

alguns causos outros fatos e memórias...

Numa caixa não cabia, é preciso muito papel.

Então aqui esta bom...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Baiana branca (três estórias)

Baiana branca


O cortejo chegara pontualmente à 1 da tarde. Pontualmente atrasado, como todos os anos. Vinham num mar branco de Gandhy, de baianas, de anjos e crianças. 
Aquela era a festa dos pretos, o santo católico dava lugar a Obaluaê. 
Dentro da igrejinha amarela, o padre rezava a missa à Santo Lázaro.
 Fora, nas escadarias da igrejinha que fica no alto do morro, a água de cheiro jorrava em alfazemas e alecrins, todas as saias rodadas para o samba, todos os decotes bem cortados para atiçar os orixás, e vassouras em punho, puseram-se a lavar degrau por degrau, e esfregar, e sambar... 
Entre risos e rodopios com as mãos na cintura, as baianas lavavam. E eram cheiros vários, e cânticos em línguas africanas, e banhos de água de cheiro e pipoca pra lavar a alma. Abria-se o mote para a dança, e era tanto samba de roda, e elas rodavam e lavavam com suas vassouras o chão de Lázaro.
O sol tilintava quente, mais um motivo para o banho alegre das crianças no jato forte da mangueira do caminhão pipa.
E era tudo uma onda de convexos. Na missa os sermões católicos, no Cruzeiro as baianas e seus feitiços. E havia também os crentes que se escondiam em suas casas horrorizados.
E como se deuses e demônios estivessem em harmonia, brincando juntos na alegria da Bahia, ao redor de toda aquela romaria a festa profana se iniciava. Uma gota pro santo antes do primeiro gole. E era o pagode e os risos altos.
De todo lugar os sons se misturavam numa cacofonia barroca. E era tanta dança, suor e cachaça... E era tanta santidade, um rosário que se abria.
E logo era a capoeira de meninos, e o Gandhy numa mancha branca, imaculada.
- Oxente! E de onde saiu essa baianinha assim tão alvinha, que mais parece filhote de urubu?
- Pinta ela de piche. Baiana branca assim pra lavar as escadas de Obaluaê e cair na roda de samba, não pode ter não.
Pegaram a criança, a baianinha branca como aberração, e não acharam piche não. Mas melaram todo o rosto, seus braços e pernas, tudo de branco que se amostrava, pintaram tudo de borra de carvão.
E todo ano era assim: no palanque o padre rezava, na escada as baianas sambavam, e em casa os crentes se escondiam: “Perdoa pai, eles não sabem o que fazem”...




(são três estórias por que são três dias de festas para o santo Lázaro...)