Entendi que precisava de um lugar além da minha caixola para guardar

bem dobradinhos alguns contos,

alguns causos outros fatos e memórias...

Numa caixa não cabia, é preciso muito papel.

Então aqui esta bom...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Erva Doce

Suspirou. Olhava a fotografia amarelada pelo tempo. Havia se passado muito tempo, nem se lembra mais da última vez que a vira. Lembrava, porém de seu cheiro. Era um cheiro mato. “Gosto de cheirar a mato”, ela dizia sorrindo sempre. Sempre estava sorrindo e tinha um ruído tão bom aquele sorriso. Um barulhinho bom que dava vontade de sorrir também. E ele sempre sorria com o sorriso dela.
Suspirou e sorriu olhando a fotografia de seu sorriso.
Provavelmente agora ele seria para ela nada mais que uma mera lembrança. Talvez uma doce lembrança. Oras, certo ele estava de que fez bem a ela. Sempre lá. Sempre... Qual era mesmo a palavra? “Disponível”, ah, sim. Ela sempre dizia “você sempre está disponível para mim”.
Em seus pensamentos também, há muito tempo ela não habitava mais. Teve a repentina surpresa de encontrar em seus manuscritos a foto que roubara para recordação, num tempo em que nem imaginava que ela poderia se tornar apenas isso, uma recordação.
Lembrou-se de seu primeiro abraço.
Foi naquele primeiro abraço, do primeiro dia em que se viram pessoalmente, da primeira vez em que percebeu que ela fingia não ser tão vulnerável... E como era. Era tão frágil, e tinha sua fragilidade refletida em seus olhos marejados.
Naquele primeiro dia em que a abraçou e sentiu-se envolto numa névoa malevolente de sentimentos. Todos os cheiros e sentimentos e confusões. Tudo vinha dela. E ele se sentiu tão vil naquele momento. Pois seu abraço, por mais que ela tentasse esconder, era um afago de consolo. Ela tinha o coração partido. E ele, já se sentia embriagado de sua paixão. Como podia ter tal sentimento despertado naquela hora tão injusta? Deveria consolá-la, sem que ela percebesse, é claro. Mas aquele abraço para ele era mais erótico do que fraterno.
Estava apaixonado. E ela estava triste. E era cena aquela dos dois abraçados mentindo um para o outro. Tomando cuidado para não serem descobertos em seus sentimentos. Ela lutando para sorrir, ele querendo parecer indiferente aquele cheiro.
Sempre que pensava nela a atmosfera se enchia daquele cheiro doce.
Mas há tanto tempo não pensava nela.
Tanto tempo passavam juntos que a sensação que dava era de que nunca se separariam. Como é esse destino...
A fotografia fora posta novamente dentro do livro onde havia sido guardada. Mas já era tarde, todos os seus sentimentos se confundiam num flashback que lhe revirava o estômago.
- Você tem medo de altura é?
- Tenho.
- Por que?
- Não sei.
- Bobagem.
- E você, não tem medo de nada?
- ...
- Não?
- Claro que tenho, todo mundo tem medo de alguma coisa...
- Então do que é que você tem medo?
- Não é de altura. Eu adoro voaaaar....
Ela se inclinou para fora do parapeito da janela do quarto andar. Seu peito se apertou como se seu coração estivesse sumindo aos poucos. Sentiu tanto medo. Mesmo assim livrou-se de sua paralisia e a segurou. A segurou pelos braços e a abraçou.
- Não faça isso.
- Bobo!
Não, não convinha pensar naqueles momentos agora. Não convinha relembrar seu amor. Platônico. Calado. Não convinha sofrer de seus arrependimentos. Esquecê-la era melhor. Estive muito bem enquanto não lembrava. Para que diabos teve de encontrar aquela foto?
- Você é meu único amigo sabia?
- Mas você tem tantos amigos, como pode dizer isso?
- São só pessoas que eu conheço. Eu conheço muita gente mesmo, mas não são meus amigos.
- Como você sabe que não?
- Eles não me falam olhando nos olhos. E nunca me fazem carinho no cotovelo.
- E como você sabe que eu sou seu amigo?
- eu sei.
- Como?
- Eu simplesmente sei...
Ela nunca respondia as suas perguntas. Tantos mistérios. Mistério que os separou. Assim, de repente. Não bruscamente, só de repente. Num momento estavam sempre juntos. No outro, se viam apenas por acaso. Os acasos que seus pensamentos causavam.
- Somos telepáticos.
- Por que?
-Por que sempre que eu penso em você, você aparece.
- Isso não vale.
- Porque não?
- Por que você está sempre pensando em mim.
- Boba.
- Acho que você me ama.
- Claro que amo.
- Não é esse amor que eu estou falando. Acho que você me ama mesmo.
- ...
Ela nunca respondia as suas perguntas. Abriu novamente o livro. A fotografia. Sorria, era aquele sorriso eterno. O que terá acontecido com ela?
Pela janela viu seus filhos brincando no jardim. Amália, sua esposa, sorria e corria entre os arbustos. O cachorro Bóris, mal criado como sempre fazia xixi nas mudas novas de erva-dose e capim cidreira. Tinha que dar um jeito de adesdrar aquele cachorro ou perderia seu pomar, pensou. De certa forma, estava feliz e aliviado.
Achou melhor livrar-se daquela lembrança.
Amou-a até esquecê-la novamente.

9 comentários:

Ferdi disse...

Fui obrigada a mandar esse texto pra alguém, o link dele.. poxa vida :/

Valter disse...

Biazudaaaaaa!!!!! junta mais uns 15 desse e publica um livro!!!!!!!!!!

Sylvio de Alencar. disse...

É longo... Voltarei depois para ter o prazer de ler.

Bjs.

Sylvio de Alencar. disse...

Lindo conto Bia.
Tenho seguido suas historias; essa é muito bonita!

Bjs.

Sylvio de Alencar. disse...

Fiquei um tempo sem conexão.
Voltarei amanhã para ler essa história de novo e comentá-la com mais vagar.
São 1:15 da matina, Tenho que ir nanar.
Um beijão e saudades.

Will disse...

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