Entendi que precisava de um lugar além da minha caixola para guardar

bem dobradinhos alguns contos,

alguns causos outros fatos e memórias...

Numa caixa não cabia, é preciso muito papel.

Então aqui esta bom...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Santo de pau oco (segunda estória)

E quem presidiu a comunidade naquele ano foi Antônio da venda de Maria-mole e Broa. Ele queria uma festa grande, a maior que o bairro já vira. Aquele seria o ano memorável de sua gestão. Cobrou tributo aos moradores e impostos mais altos aos que trabalhavam na festa. Mas a grande surpresa só o Padre Honório e alguns mais chegados à sacristia que sabiam.
- Mas a imagem grande nunca saiu da igreja em mais de trezentos anos. O senhor tem certeza de que é seguro?
-Mas é claro que é padre Honório. Tem policia pra tudo que é lado, que eu mesmo mandei chamar reforço. Além do mais quem roubaria um trambolho daquele?
- Não blasfeme seu Antônio!
- Desculpe seu padre, eu não queria blasfemar não. Deus me perdoe. Era só pra dizer que a imagem é muito grande e pesada, não haveria de ter no mundo alguém que pensasse em carregá-la, e se o fizesse, não faria desapercebido, num sabe?
Combinaram-se assim. Seria missa das sete da manhã até o meio dia. Depois da uma da tarde até as 4h que era a hora da procissão.
Chegado o horário marcado, os anjinhos já estavam a postos em cima do carro alegórico construído especialmente para o santo Lázaro que daria seu primeiro passeio até o Cemitério do Campo Santo e de lá voltaria pra casa de onde só sairia em mais trezentos anos, talvez.
Todos na entrada da igreja ouviam o grande sermão de padre Honório, que falava de um palanque, também idéia do Presidente, seu Antônio.
Dentro da igreja fechada, o Santo de madeira de lei, com quase quatrocentos anos de idade, era retirado de sua cúpula no altar.
Na hora dos cânticos de candomblé que se misturavam aos louvores dos protestantes, padre Honório e o presidente se entreolharam em sinal para que abrissem a porta da igreja e revelassem a grande surpresa.
De fato maior surpresa que aquela não poderia haver. O altar completamente vazio de São Lázaro. E também a igreja parecia não guardar qualquer vestígio de seu paradeiro.
Foi o desespero. A população ainda não entendia a mudez estatelada do padre, nem o sobe e desce desvairado do presidente. Os anjinhos olhavam-se rindo, esperando para se mostrar ao grande publico. Publico esse cheio de jornalista e artistas que o presidente fez questão de garantir a presença na primeira fila da procissão, logo depois do cortejo dos eclesiásticos e dos músicos do Olodum.
De repente alguém berrou na multidão:
- Roubaram o São Lázaro!
E foi um mar de “Ohs” e exclamações assustadas. Quem poderia roubar a imagem do Santo? Especulações para todo o lado. Havia quem dissesse que o próprio presidente. Outros falavam em terrorismo, e havia quem achasse mesmo que foram os crentes!
O mistério logo se resolveu. A Beata Lurdinha, fazia um lanchinho na sacristia quando viu o santo ser levado. Decidiu seguir os mal-feitores para saber onde levariam o santo e lá estava ele, na casa de dona Maria Madalena, a cidadã mais velha do bairro. Maior devota de são Lázaro de que se tinha notícia.
Toda a multidão seguiu em procissão até a casa da velha senhora.
Chegando lá deram com Dona Maria ajoelhada aos pés do santo. Remexendo lá com uma serra, uma chave de fenda e uma vela pra iluminar. Os homens que levaram a imagem até lá, se explicaram dizendo que Dona Maria afirmou que o padre mesmo havia dado a ordem de levar o Santo pra lá e eles nunca duvidariam da palavra de Dona Maria, sua avó, avó postiça de quase todo mundo no bairro, aliás.
Dona Maria remexia o santo, até ele fazer um barulho, e o santo se abriu. O padre ainda sem muita reação, exigiu do Presidente que fizesse alguma coisa. A velha devia era está ficando gagá.
Quando se precipitou para tentar impedir a velha, o presidente e todos os romeiros pararam surpresos. A imagem de São Lázaro se abriu em banda como uma laranja e de dentro dela dona Maria tirou um pacote, um saco pra ser mais exato.
Ela sorria emocionada. De dentro do saco Dona Maria tirou um rosário de ouro e pérolas.
- Tava escondido aí há quase cem anos. Foi minha avó quem butou lá. Ela me contava que o santo era oco e que dentro dele ela tinha posto esse rosário lá.
O rosário foi dado a sua avó por Orestes de Amorim Filho, antes de ele ir morrer na guerra. Orestes foi o único amor da vida de Maria Celestina Alves, avó de dona Maria. Ela guardou lá o rosário para escondê-lo de seu pai que a obrigou a se desfazer da jóia, pois ela se casaria com o rico herdeiro da Família Albuquerque. Triste fim de Dona Maria Celestina, morreu falando de seu amor.
O santo foi aberto, e quem diria que uma imagem de madeira de lei que não saia de seu altar há mais de trezentos anos, escondia os segredos da família de Dona Maria Madalena, a moradora mais antiga do bairro, a devota mais fervorosa do santo Lázaro...

3 comentários:

Valter disse...

kkkkkkkkkkkkk... tudo a ver com a magia de são lázaro mesmo biazudaaaa

Ferdi disse...

OOOOOOWN, quão fofo e tristinho.

Sylvio de Alencar. disse...

Gostoso de se ler!
A história se desenrola com suavidade, e nada sobra.
Parabéns. Virei sempre, como um bom leitor que se preze!

Abrçs!